Segunda e última parte do bate-papo com o professor doutor Gazy Andraus. Dando continuidade ao que já se desdobrava, Gazy fala sobre os meandros do meio acadêmico, eventos da área e produção de HQs. Confiram! Para acessar a primeira parte da entrevista clique
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Rosemário Souza; Maria Alice; Gazy Andraus; e Matheus Moura - no VI FIQ, em BH
09 - Como anda essa questão de reciclagem de professores para que entendam e saibam ler HQs?
Gazy Andraus:
Nós, pesquisadores, tentamos ampliar o quadro de informações acerca da linguagem das HQ, seja nas aulas, palestras, ou em matérias e artigos acadêmicos e/ou blogs, como o excelente Blog dos Quadrinhos do Dr. em Letras e Jornalista Paulo Ramos. Além disso, há grupos de pesquisa, como o Observatório de HQ (antigo NPHQ) da ECA – USP, coordenado pelo prof. Dr. Waldomiro Vergueiro, e a iminente possibilidade de reativação do NP de quadrinhos da Intercom, o maior congresso de comunicação do Brasil e de alcance internacional. Tudo isso leva a divulgação do potencial dos quadrinhos, direta ou indiretamente, aos professores universitários e da rede escolar. Além disso, espalhados pelo Brasil, há trabalhos de pesquisadores da área quadrinhística, confluindo diretamente no incentivo do reconhecimento da linguagem dos quadrinhos e seu uso, como o trabalho do Mestre em Artes João Marcos Parreira Mendonça. Seu incessante trabalho em explicar os quadrinhos aos professores, ensinando-os a lê-los e usá-los, inclusive, vem obtendo valiosos resultados, ainda mais graças a seu recente livro “Traça traço quadro a quadro: a produção de histórias em quadrinhos no ensino da arte” (editora C/Arte, 2008), que resultou justamente de sua experiência nas oficinas com os professores.
Há vários outros livros recentes que podem ajudar, como o “Quadrinhos na educação: da rejeição à prática”, organizado por Waldomiro Vergueiro e Paulo Ramos. Como se vê, a área está crescendo e os professores não estarão “órfãos” nessa empreitada. É interessante ressaltar que, assim como João Marcos e mesmo eu, muitos outros teóricos dos quadrinhos no Brasil, são também pesquisadores com titulações acadêmicas de mestrado ou doutorado, como Henrique Magalhães, Edgar franco, Edgard Guimarães, Flávio Calazans e outros!
Obviamente isto se torna um trunfo, já que somos artistas autores e sabemos discernir quais as lacunas que os professores não autores de HQ têm em relação a essa arte, no que tange a seu conhecimento, pois também éramos (e ainda somos) leitores que muitas vezes foram “proibidos” de usar os quadrinhos durante os estudos escolares: uma realidade totalmente oposta hoje em dia!
10 – Bom, em outra oportunidade que conversamos você mencionou ter detectado preconceito acadêmico justamente por se dedicar às HQs, inclusive em concursos de docência em universidades. Essa "realidade oposta" que mencionou acima, é mesmo a difundida? Como se deu isso?
Gazy Andraus: Realmente, mas em alguns casos, embora tais preconceitos com os quadrinhos estejam diminuindo até em progressão geométrica, eu diria, na atualidade. A Universidade estadual de Londrina, por exemplo, mantém uma disciplina de história em quadrinhos dentro da grade curricular do curso de Design. Mas não tais preconceitos não ocorreram apenas comigo. Quando eu fazia o doutorado, assisti o concurso de um professor da USP que foi aprovado, mas que, por seguir duas linhas de pesquisa, sendo uma na de comunicação com quadrinhos, um dos doutores da banca que o sabatinava discriminou as histórias em quadrinhos como linguagem menos complexa que o cinema. Ele afirmou que adaptações literárias cinematográficas têm possibilidades maiores de criação do que adaptações de livros aos quadrinhos. Para ele, a HQ limita o rol de possibilidades criativas na adaptação devido à sua linguagem, contrariamente ao cinema. Ora, isso é preconceito oriundo de desconhecimento do manancial potencial dos quadrinhos (e também desconhecimento da gama de HQ existente, incluindo para o público adulto). Ele, por exemplo, obviamente, desconhece a obra “Cidade de Vidro”, adaptada em quadrinhos genialmente e de forma extremamente criativa pelos autores David Mazzucchelli e Paul Karasik a partir do livro homônimo do escritor Paul Auster. Na universidade, o mesmo sintoma de desconhecimento faz com que pensem que os quadrinhos não são arte (preconceito arraigado desde a instalação da burguesia, em que os artesãos, por serem “menos instruídos” praticavam artesanato, enquanto as ditas “artes maiores” eram praticadas pelos de melhores instruções). Num caso ocorrido comigo, simplesmente alegou-se que eu fazia quadrinhos, ainda que eu tivesse tentado demonstrar que havia diferenças entre o quadrinho “mainstream” e o autoral e suas possibilidades criativas. A verdade é que, enquanto o quadrinho não for conhecido realmente, o imaginário de quem o tem preconceituosamente (mas sem culpa) é aquele assim: “Mônica e Cebolinha, Walt Disney, super-herói e quadrinhos japoneses de olhos grandes”. Portanto, pouca coisa e mínima versatilidade...ledo e total engano!

11 – Na sua opinião, como seria possível fazer este trabalho de "aprendizagem" com os docentes?
Gazy Andraus: O João Marcos Parreira Mendonça, que além de autor de HQ é professor universitário, consegue resultados ótimos nos cursos que ministra, explicando e mostrando aos professores de escola como aprender a ler quadrinhos com uma visão técnica, mas também artística e fluída. Porém, creio que isso pode se ampliar, com cursos de capacitação nas redes de ensino no Brasil inteiro, que podem ser dados por profissionais gabaritados como o referido João Marcos, ou qualquer outro que tenha pesquisado as HQ, como os membros do Observatório de HQ da ECA-USP, por exemplo. É como se descortinasse um mundo novo aos professores. Meu conselho é o uso de PowerPoint com amostragens de HQ, autorais, principalmente, e exercícios de leitura, ou seja, indicação de HQ a serem lidas pelos professores, como costuma ser feito com alunos, quando lhes pedem para lerem e interpretarem livros. Eu fiz isso como atividade complementar no curso de pós-graduação lato sensu que ministro, para professores na UNIFIG, ao indicar que lessem um álbum de minha autoria, o “Sacro-Conquistador”, compilando cronologicamente minhas HQ de 1987 a 1997, e o resultado foi muito interessante! Alguns professores me relataram que a temática (fantasia-filosófica) lhes propiciava refletir sobre a existência de uma forma diferente. Outra professora me disse que fez duas leituras: uma sem a audição de músicas, e outra ouvindo sons, o que deflagrou uma nova forma de leitura/entendimento bem diferenciada e sensível! Assim, pode se supor que, ao ler HQ, os professores da rede escolar, numa segunda etapa, dependendo do material a ser lido, leiam HQ sob audição de repertório musical que eles gostem. Quando “Batman – o cavaleiro das Trevas” foi lançado no Brasil entre 1986 e 1987, eu me lembro de ter sorvido seu conteúdo, número após número (eram 4 edições) ao som de rock! Parecia que eu estava “vendo” um filme, dado que a narrativa de Frank Miller era fluída e não truncada como a maioria dos roteiros de HQ de super-heróis. Eu dizia a meus amigos que a dramaticidade do roteiro da HQ era exponenciada quando eu a lia, ouvindo músicas, que eram rock (heavy metal inclusive), dando mais dramaticidade à obra!
12 – Entre outubro e novembro de 2008, ocorreu em Guarulhos (SP), o 3º Seminário de Pesquisa em Histórias em Quadrinhos, tendo você como um dos organizadores. Como foram os dois dias de apresentações? E como retrospectiva das edições anteriores em comparação com 2008, como avalia?
Gazy Andraus: Excelentes! Deu muito trabalho organizar, porque dependia da flexibilidade e disponibilidade dos palestrantes. Mas a intenção era misturar apresentações de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) e outros estudos, como os interdisciplinares do curso de Geohistória da Unifig, em que os alunos trabalharam com conceitos de suas áreas, usando HQ como Maus (de Art Spiegelman) e Aldebaran (do autor fraco-brasileiro Leo), entre outros. Tudo isso ajudou a dirimir preconceitos na própria área acadêmica, que muitas vezes desconhece o valor imagético e informativo dos quadrinhos, principalmente aos professores que assitiram o evento, e que eram de outras áreas, como Educação Física e Letras, por exemplo. A coordenadora do curso de Educação Artística da instituição ficou maravilhada com o universo amplo dos quadrinhos, e gostou muito de como elas também podem ser utilizadas em cursos universitários e de pós-graduação em educação, como foi mostrado no seminário pelos professores da UMESP, Elydio dos Santos Neto e Marta Regina. Ainda houve foco nos estudos do observatório de HQ da ECA-USP pelos professores Waldomiro Vergueiro e Roberto Elísio dos Santos, e apontamentos pertinentes de HQ como literatura e HQ na Internet, tendo participado pesquisadores não só de São Paulo, como Lielson do Paraná e Edgar Franco de Goiânia (da UFG)!
A proposta do evento, idealizada por Waldomiro Vergueiro, é de, a cada ano, ser feita em uma instituição universitária diferente, como o foi nos anos anteriores: ano passado na Universidade Metodista de São Bernardo, em São Bernardo-SP, e em 2006 na Universidade Municipal de São Caetano do Sul, IMES.
O evento de 2008, que se realizou na UNIFIG em Guarulhos, foi maior que os anteriores, pois desta vez, em dois dias, além de diversas palestras, houve exposição de HQ de alunos do curso de Educação Artística da UNIFIG, e também venda de quadrinhos independentes do pessoal do 4º. Mundo! Essa interação universitária ampliou a visão que alunos e professores (e direção) de vários cursos tinham, acerca das HQ, numa conjunção interdisciplinar muito prolífica!
13 – Já há planos para o seminários futuros?
Gazy Andraus: Acabou de acontecer o 4º., em setembro, na Universidade Cruzeiro do Sul. Teve bastante TCCs inscritos (incluindo o de um ex-aluno da UNIMESP/UNIFIG, sobre a HQ underground brasileira da década de 70), e foi bem interessante também. Aliás, aconselho aos estudantes universitários do Brasil todo, enquadrados nessa categoria de pesquisa em HQ e afins, que enviem seus trabalhos defendidos em 2009 para o professor Waldomiro Vergueiro, pois pode ser que alguns deles sejam convidados a participar do V seminário de HQ (ainda a ser estipulado onde será)! (vejam e-mails no link http://www.eca.usp.br/nucleos/nphqeca/nucleousp/home.asp ).
14 - Saindo agora um pouco da área acadêmica. Sobre sua produção. Mencionou que fez uma coletânea para apresentar aos professores, um dia poderemos ver isso publicado?
Gazy Andraus: O álbum “Sacro-Conquistador” reuniu de forma cronológica, muitas de minhas HQ produzidas desde 1987 a 1997, quando resolvi comemorar naquela data meus 10 anos de produção de quadrinhos fantástico-filosóficos. Eu compilei as HQ e aprontei uma edição manufaturada, tendo feito pouco mais de 20 exemplares. Mas não foi apenas xerocar as HQ reduzidas no formato A-5. Também elaborei um formato diferente, em que a capa era ambígua: de um lado estava o título em capa dupla, e do outro as imagens de todas as capas de zines que eu fizera até então. Ainda coloquei uma parte como capa dura (com um papel bem grosso cartonado que forrei com a imagem da capa xerocada, e depois com papel transparente cont-act sobre ela), enquanto que o leitor teria o álbum como um objeto-arte, já que poderia pô-lo de pé. Junto a isso tudo, inseri colado na parte interna, uma página dupla de uma HQ colorida, como um “brinde”. Assim, o leitor teria em mãos não simplesmente um fanzine, e sim um mini-álbum de 84 páginas de formatação diferenciada. O lançamento se deu em uma livraria de Santos que não mais existe, a Loja “Invasores”. Depois, para tornar mais fácil reproduzir novas “tiragens”, e também para facilitar a co-edição com Edgard Guimarães, que na época não só divulgava zines em seu QI, como também vendia os fanzines de outros autores como eu, tirando suas próprias cópias xerox, simplifiquei no formato padrão grampeado. Assim, embora o álbum seja totalmente independente, pude recentemente fazer uma nova cópia xerocada mais simples (como a que enviei a Guimarães) e a deixei como material a ser reproduzido pelos alunos de pós-graduação do curso de docência que dou na Unifig. O interessante, como já comentei antes, é que, um dos alunos (são na verdade professores também universitários fazendo essa especialização) me disse que, ao ler as HQ ao som de músicas, tinha outras sensações, às vezes até opostas de quando as lia sem a audição de músicas. Talvez porque meu processo criativo consista mesmo na criação de quadrinhos ao som musical, o que me influencia largamente (e me abre “canais” no hemisfério direito do cérebro).
A maioria das minhas HQ são intuitivas ao extremo, e se cumprem em poucas páginas e elipses (como num hai-kai ou num koan), deixando ao leitor a completude na mente do que se passa entre os requadros. Mas, mais do que isso, as “mensagens” são oriundas do meu canal direito, de tal forma, que ribombam no leitor da mesma maneira. Porém, se ele não estiver acostumado, não consegue lê-las, pois normalmente o hemisfério esquerdo (racional) do cérebro pede mais explicações e um roteiro mais, digamos: linear! Nesse caso, como a maioria das pessoas está acostumada a usar muito de sua porção racional, reclama que não entende minhas histórias. Mas a afirmação delas é compreensível: as HQ que faço não são mesmo para serem “compreendidas”, e sim “absorvidas” pelo hemisfério direito mais que o esquerdo! Como quando alguém lê um poema hai-kai. Ou quando tenta desvendar uma questão zen-budista chamada de “koan”, como por exemplo: “Qual o som que faz uma mão ao bater das palmas?”. O koan é para que a mente racional (hemisfério esquerdo) se “cale” um pouco (deixe de ser dominante) para que o direito (criativo, intuitivo) se sobressaia. Koans são usados por monges budistas a seus discípulos, com a finalidade de que eles tenham insights. Minhas HQ têm o mesmo intuito. Quanto a ser publicado novamente, posso adiantar que eu tenho a intenção de publicar um outro álbum meu “oficialmente” com esse tipo de conteúdo...acho que a época de eu fazer isso se aproxima...Porém, a editora Marca de Fantasia (http://www.marcadefantasia.com.br/albuns.htm) chegou a publicar outro álbum meu, oficialmente: o “Ternário M. E. N.”, mas que está esgotado. Ele trazia como carro chefe uma HQ subdividida em três, “MorreuEstrelaNova”, que tinha um quê de ficção científica pendendo pro misticismo cósmico, além de outras HQ.

15 - Recentemente publicamos na Camiño di Rato # 1 e #5, suas HQs, “Hesperórnis - O pássaro do oeste” e “Gliptodonte”. Além dessas HQs, o que mais produziu recentemente? E o que está no "forno"? Anda colaborando fixamente com alguma publicação?
Gazy Andraus: Na verdade, minhas produções têm sido esporádicas, tanto em HQ como em ilustrações, pois o trabalho como professor universitário consome muito tempo incluindo pesquisas. De certa forma, isto acaba atestando a minha própria tese: quanto mais usamos a inteligência racional (hemisfério esquerdo do cérebro) menos nos apercebemos necessitados de usarmos a criatividade e intuição (hemisfério direito). Ou seja, há a necessidade de eu produzir mais histórias em quadrinhos, que por outro lado instigam o hemisfério direito a trabalhar mais...por outro lado, quanto menos eu elaboro arte (e história em quadrinhos é arte) menos "vontade" eu tenho de criar artisticamente. Isso ocorre porque o cérebro é neuroplástico e funciona se o estimulamos. Charles Darwin, após muitos anos de pesquisa que culminou em sua teoria da seleção natural, percebeu que não tinha mais sensibilidade para as artes. Nada artístico o tocava mais. Isto se deu porque trabalhou seu hemisfério esquerdo de forma muito ampla descuidando-se de desenvolver áreas pertinentes à criatividade, atrofiando-as.
Quando eu produzo arte, principalmente ouvindo música, parece que a "vontade" começa a ressurgir: por isso será importante eu continuar produzindo vez ou outra HQ. E a participação recente da Camino di Rato mais o seu convite para continuar participando me acalenta uma nova vontade de elaborar HQ na minha linha, mas tentando ser mais criativo. Tento fazer trabalhos similares ao "Hesperornis" com algo mais, como a HQ "Mentropolis" (é com "m" mesmo, de mente) que publiquei antes no excelente ZineRoyale do Jozz. Naquela história mixei um pouco de foto que me foi fornecida pela artista-educadora Luciana Arslan, e que retrabalhei no photoshop, junto com um pedaço do cartaz do filme "Metropolis" (este sim, sem o "m") de Fritz Lang, com meus desenhos. Assim como Mentropolis, Hesperornis (que esbocei pouco antes e finalizei quase junto) e “Gliptodonte” trazem algo diferente, que foi a inserção de retículas. Recentemente a revista Subversos #4 republicou minha HQ “Os Homens Armados de Paz”, versão colorizada pelo meu amigo artista Jorge Del Bianco. Essa HQ já foi publicada anteriormente na revista Fêmea Feroz, em 1994, e muito elogiada à época por sua verve poética em apenas uma página. Enfim, além dessas novas HQ (ou uma mais complexa um pouco) que quero fazer para as próximas Camino, continuo vez ou outra produzindo arteilustrações que envio, ora para meu blog de imagens: http://gazymagem.nafoto.net/index.html , ora para o site Dissonância: http://www.dissonancia.com/2008/23-08.htm.
16 – Já chegou a fazer algum tipo de parceria, se sim com quem, caso não por que? Pergunto pois, assim como o Franco, possuí estilo temático similar (poético-filosófico) e ele mesmo (que me lembre) já fez parcerias com o Mozart Couto (BioCyberDrama), Al Greco (Retrogênese, ainda inédita) e com Gian Danton (HQ também inédita)...
Gazy Andraus: Sim, claro. A primeira com Fernando Feijó, que participava do zine Barata. Desenhei uma HQ roteirizada por ele, para que eu recomeçasse nos quadrinhos. Porém, a participação com o Edgar Franco, que veio depois, foi o ponto alto. Quando eu conheci seu trabalho em 1993, passamos a nos corresponder e nos assombrar com a similaridade de nossas propostas estéticas e éticas, tanto no estilo de arte, como nas questões existenciais. Edgar então sugeriu que criássemos o zine Irmãos Siameses, colocando nele HQ que elaborariamos juntos. Além delas, eu achei melhor inserirmos cada um de nós uma HQ autoral começando o zine e finalizando-o. Escolhi duas (uma minha “O Jogo da Vida e da Morte” e outra dele “Bela”) muito similares e explicamos tudo no editorial. O enfoque de ambas as histórias era uma relativização acerca do que está vivo e do que está morto.
Filosoficamente falando, expunha que a morte não é um fim, e nem uma supressão, e sim, uma manutenção da vida para algo novo e “vivo”. O mais impressionante é que cada um de nós fez a HQ antes de termos nos conhecido, e a estrutura da HQ incluía uma estética pertinente ao que veio a ser conhecido como “fantasia-filosófica: HQ sintéticas com mensagens metafísicas condensadas de forma poética. Inclusive, o último quadrinho de cada HQ finaliza de forma similar: em primeiro plano jaz uma cabeça “morta” enquanto que o “vencedor” se retira. O texto final, porém, adverte que há uma contrariedade na aparência da cena. Foi uma das melhores parcerias que fiz, tendo o zine sido lançado em meados de 1994 e rendido muitos elogios. Outra curiosidade é que eu e o Edgar nascemos também na mesma cidade de Ituiutaba, com a diferença que sou 5 anos mais velho que ele. Todas essas coincidências não parecem ser algo apenas ao acaso, já que incluem o estilo de pensar e fazer arte, bem como a formatação do gênero fantasia-filosófica: parecem mais ser algo que esteja implícito numa “ordem” mais inteligente e difícil de se explicar pela lógica clássica (como o é praticamente impossível de se explicar a dualidade da micropartícula atômica, que se apresenta onda e corpúsculo ao mesmo tempo!).
Uma ou outra parceria veio depois, mas com HQ esparsas. Posso citar a mais recente, com Carlos Morgani, que me pediu para reelaborar duas HQ do meu zine HQMente.
17 - Com o Edgar, em especial, houve mais parcerias? O Zine "Irmãos Siameses" durou até quando?
Gazy Andraus: O “Irmãos Siameses” foi um número único, e até hoje eu faço cópias reprográficas, quando necessário. Quanto a mais parcerias com o Edgar, além desse zine e de cursos de quadrinhos de autor que dávamos juntos (uma vez em Brasília e duas em Goiás), não houve mais com relação a HQ ou zines, exceto uma capa de um álbum alternativo que ele iria fazer compilando seus trabalhos em dueto com outros autores (eu faria uma parte da capa). Mas acho que este projeto ficou para outra ocasião. Também tive uma pequena participação, entre outros convidados especiais, brevemente nos vocais de uma faixa do CD “Neocortex Plug-In”, do Post Human Tantra, a banda-solo de Edgar Franco. Além disso, sempre atuamos juntos com mais outro músico, o Denio Alves, num projeto experimental sonoro que foi batizado por eles de “Essence”, há alguns anos (e que acontece sempre nas férias, em Ituiutaba, nossa cidade natal). É uma banda em que tocamos de maneira improvisada, e sinérgica, e inclusive fazemos a capa dos cds (ora o Edgar, ora eu). O detalhe é que realmente não sou músico, mas sempre gostei de tentar cantar, acompanhando os encartes dos discos que tenho, em especial estilo heavy metal e progressivo. Para o Essence, costumo escrever letras similares às músicas “viajantes” do Genesis (fase Peter Gabriel) e bandas de heavy ou prog de tons místicos. Escrevo em inglês, mas há algumas músicas em português também (e no Essence cheguei a cantar um pouco de árabe). De toda maneira, quando nos juntamos, utilizamos muitos instrumentos musicais e sonoros, como gaita, flauta, guimbard (uma espécie de micro berimbau europeu feito de metal, para ser tocado na boca), berrante etc. Daí, cada um de nós canta uma música (e todos nós elaboramos letras), enquanto que a improvisação vai acontecendo. Mesmo sem que eu saiba tocar, inicia-se uma sinergia entre nós que acaba por nos unir e resultar em momentos excelentes, enquanto o experimento acontece (é claro que depois, na audição, eu vejo minha desafinação em muitos momentos). Ou seja, desenrola-se o “aqui e agora” do fazer criativo e intuitivo, e muitas vezes meu cantar ou tocar gaita se torna bem aprazível e, de certa forma, harmônico. Lembro que quando era graduando, havia uma disciplina de música no curso de artes, em que o professor nos fez trabalhar a percepção auditiva e musical. Arranjávamos objetos e aprendíamos a tirar sons deles, ao mesmo tempo em que tentávamos “tocá-los” em conjuntos. Esta experiência me fez ter coragem para assumir a participação no Essence, e acabei por compreender que tem uma diretriz similar a dos fanzines, que é criar sem temer críticas ou “falta” de técnica. Na verdade, aprendi com isso que o ato criativo nos faz impulsionar e elaborar coisas novas que nem sabíamos capazes. Depois disso, quando eu ia a Goiás, juntava-me com alguns primos adolescentes que sabiam música e tocam instrumentos variados, como guitarra, baixo e teclado. Numa dessas “brincadeiras”, cantei em estilo ‘heavy” uma música dos beatles (“Help!”) com um deles. Mas o mais ousado foi quando juntamo-nos e enquanto iam improvisando sons de um teclado e guitarra, eu ia “cantando” textos de um livro teórico escolar de física. O impressionante é que minha voz fluía potente e os textos “científicos” iam saindo cantados equilibrando-se com os sons que eles tiravam! O resultado era impressionante (mas infelizmente não gravamos na hora, o que é uma pena).
Isto mostrou a eles (e me reforçou) que tudo é possível, e que não devemos nos fiar no argumento de que “não sei”, fazendo mesmo assim! Isto abre novas vias mentais e de percepção e nos torna mais criativos, conforme Goethe já afirmou acerca disso. Ele dizia que quando tivéssemos idéias, que realizássemos aquilo que vislumbramos, independente de receios ou interposições lógicas, pois assim, o universo nos conduziria ao possível e ao “novo”. É na verdade uma teoria que funciona e que encontra eco nas leis da natureza e no potencial de nossas mentes.

18 - Legal! Bom saber dos "dotes" musicais!! Mudando de assunto, recentemente você organizou um outro evento em São Paulo chamado O Universo Multicultural das HQs. Fale um pouco sobre ele, organização, realização, se haverá um próximo, essas coisas...
Gazy Andraus: Sim, fui chamado pela Gestora Cultural Dolores Biruel, do CCJ-SP (Centro Cultural da Juventude de São Paulo: http://escuta.estudiolivre.org/2009/01/20/programacao-ccj-fevereiro-de-2009/ ) para ser curador do evento, que é o segundo do Centro relacionado às histórias em quadrinhos. O primeiro, ocorrido em janeiro de 2008 eu participei, tendo sido convidado pelo Waldomiro Vergueiro. Nesta versão de 2009 o evento teve mais dias e aumentou o número de envolvidos: autores e pesquisadores da Nona Arte. Deu trabalho montar, mas com a ajuda da Dolores a coisa andou bem. Porém, devido a mudanças de orçamentos da prefeitura, tivemos que cortar alguns nomes previamente escalados, tendo tido o cuidado de manter um equilíbrio entre palestras e workshops, abrangendo diversos aspectos das HQ, refletindo o título que demos ao evento: um multiculturalismo, como os mangás, as charges e cartuns, as HQtrônicas, o roteiro e arte nas HQ, o preconceito e o feminino nos quadrinhos, a autoria e o trabalho em conjunto, bem como o esclarecimento dos aspectos artísticos dos quadrinhos. Faltaram ainda os fanzines, mas como uma boa parte dos palestrantes vem desse universo, vez ou outra eles eram mencionados. Porém, eu gostaria de tentar sanar as omissões no próximo evento, caso haja. Segundo a Dolores a chance de ocorrer outro em 2010 é grande. Obviamente não sei se serei novamente o curador, mas o importante é que os quadrinhos ganham cada vez mais respeitabilidade e isso transparece também no meio acadêmico. Para se ter uma idéia, a metade dos que trabalharam nesse evento tem formação de pós-graduação e pesquisa histórias em quadrinhos e uma boa parte é membro pesquisador do Observatório de Histórias em Quadrinhos coordenado pelo Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro (http://www.eca.usp.br/agaque/nucleousp/home.asp ).
19 - Tive a oportunidade de presenciar uma apresentação sua na Intercom - A Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação - e me bateu a dúvida: ainda faz parte do Grupo que compõe a mesa de discussão de HQs? Como anda esse Grupo na Intercom? Me lembro que ele havia sido desativado por falta de doutores...
Gazy Andraus: Mas já há doutores mais do que o suficiente, desde há uns três anos. O que acontece é que a burocracia e os valores para associar-se é que “emperraram” um pouco. O Waldomiro disse que neste ano de 2009, na Intercom, o NPHQ (Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos), que durante uns três anos esteve dissolvido e abarcado temporariamente pelo NP de Produção Editorial, seria reativado, mas houve problemas com prazos, e parece que ficou para 2010! Mesmo assim, desta vez o número de doutores já ultrapassa, e muito, a exigência dos estatutos do congresso. O meu trabalho apresentado em 2008 “A questão espiritual nas histórias em quadrinhos de Thor, Surfista Prateado e Super-Homem” pode ser encontrado buscando-se pelo meu nome neste link: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2008/indiceautor.htm
20 - Com relação a estudos direcionados às HQs, prepara algum novo artigo?
Gazy Andraus: Sim. Talvez algum artigo para o grupo de pesquisa de mídia independente da Intercom, ou então para um evento novo relacionado à Cultura Visual na Universidade Federal de Goiás (http://www.fav.ufg.br/culturavisual/seminario/), onde trabalha como professor o Edgar Franco. Ainda não tenho os temas, mas preciso terminar meu livro “Histórias em Quadrinhos de Autor” para a Editora Marca de Fantasia, bem como ainda alguns outros projetos de trabalho, incluindo um que envolve capacitação aos professores para saberem ler e usarem histórias em quadrinhos em salas de aula.
21 TdR – Algo mais a acrescentar? Tanto com relação às pesquisas como à sua arte?
Gazy Andraus: Seria interessante as pessoas entenderem que o ser humano é capaz de pensar dualmente: de forma racional (usando o hemisfério esquerdo cerebral) e intuitiva/criativamente (ativando áreas do direito). Dessa forma o ser humano se torna não só pragmático e racional, mas também criativo, podendo criar coisas na vida que sejam não só úteis, mas que igualmente dialoguem com a criatividade, a estética. No meu caso, a própria elaboração de minha tese me fez descobrir isso, e também me tornei “cobaia” de mim mesmo, sem premeditar: hoje em dia percebo as dificuldades de muitas pessoas em criarem, porque se acostumaram a trabalhar mais racionalmente, “adormecendo” o criativo. Eu tenho tido certa dificuldade em voltar à ativa de forma mais “fluída” nos meus desenhos e quadrinhos, não por não ser criativo, mas por não exercer a criatividade mais vezes como eu fazia. Daí, sei quando muita gente me pergunta se sonho com meus desenhos, se tomo algo para elaborá-los etc...não é nada disso, é só que consigo usar minhas áreas criativas, principalmente graças à audição de músicas, e tenho certeza que estas áreas não se desligam: basta que eu volte a trabalhar a criatividade que o fluxo retorna! Sei disso e tenho lutado ultimamente para conseguir equilibrar tal fato com os afazeres burocráticos da minha vida, principalmente às questões relativas às aulas (que também podem e devem ser criativas).
Meu recado a todos é: façam o que fizerem, trabalhem o criativo elaborando desenhos, músicas, textos criativos, brincando com crianças...não “desliguem” essas áreas, pois do contrário suas vidas serão uma sucessão de afazeres para finalizar sem alegrias criativas! É esta manutenção entre o racional e o criativo que tenho tentado fazer minha vida inteira, no caso, com meus escritos e artigos científicos, aliados à minha arte dos quadrinhos e desenhos.
Para conhecerem grande parte do meu trabalho artístico e de pesquisa, basta irem direto ao blog http://tesegazy.blogspot.com/ , que nele encontram todos os outros links de meus trabalhos. E meu e-mail é gazya@yahoo.com.br . Grato pela entrevista e um abraço.